BRINCADEIRAS DE MACACO
Tokwene-a-macaca deu três cambalhotas, equilibrou-se sobre as suas patas de símio e desapareceu entre a ramagem, carregando na mente o desejo de uma visita a casa da sua grande amiga, Noa-a-cobra. Não se viam já passavam duas ou três semanas. “Deve estar a correr-lhe tudo bem por lá, a malandra nem sequer me ligar, liga.” pensou Tokwene-a-macaca, tentando uma ligação. “Está com o celular desligado, a safada.” Pensou em mandar um e-mail, mas quedou-se logo na opção de ir visitá-la à casa.
- Alguém em casa? – Silêncio – Dá licença!
- Quem é?
- Sou eu, abra!
Do outro lado da palhota subia uma nuvem, trazendo à vista a imagem de uma fogueira, tosca, na qual fervia uma chaleira enegrecida pelo tempo de uso. – “se me tivesse Deus dado um par de mãos e braços, dava eu um trato nesta chaleira” – Dizia de si para si Noa-a-cobra, sempre que os seus espertos olhos se lançavam à figura daquela pobre chaleira.
Tokwene-a-macaca circundou a palhota, entrou e descobriu a amiga com o corpo enfiado num tijolo encostado à cubata, a cabeça aquecendo a um palmo da fogueira.
- O que fazes enfiada nesse tijolo, à esta hora?
- Vigio a chaleira ao lume!
- Ainda bem, assim aproveito e tomo uma chávena de chá!
- Esta água é para amassajar os meus filhos!
- Ah, o que aconteceu com eles?
- Mais uma vez os teus filhos andaram a arranhar os meus!
- São assim mesmo as brincadeiras das crianças! O que fazer?...
Fazia muito tempo que Noa-a-cobra estava habituada a ouvir esta resposta da amiga, Tokwene-a-macaca, mãe dos pequenos símios, amigos estes das cobrinhas, filhos estes de Noa-a-cobra.
Na manhã seguinte, depois de uma breve conversa com a mãe, as cobrinhas saíram satisfeitíssimas para as brincadeiras do dia. O caso não era para menos. Cansada de fazer curativos, Noa-a-cobra autorizou os filhos a defenderem-se das macacadas dos pequenos símios. Cinco mortos foi no que saldou a brincadeira do dia para a banda dos peludos. Zangada de quase lançar fumaça pelos ouvidos, rosto banhado em lágrimas, Tokwene-a-macaca foi dar à casa de Noa-a-Cobra aos berros.
- Os teus filhos mataram os meus macaquinhos!
- São brincadeiras de crianças! O que fazer, minha amiga?
E, na fogueira ardendo ao meio da cubata, a enegrecida chaleira fervia para o chá da celebração do fim da macacada.
Aurélio Furdela |